Um ano sem Armando Nogueira

SÃO PAULO (E a bola chora de saudade) – Hoje (ontem, pela hora que escrevo), dia 29/03/2011, fez um ano que o mestre Armando Nogueira se foi, deixando o jornalismo um pouco mais triste, mas deixando também uma herança magistral. Todas as homenagens serão insuficientes. Um ano sem um dos mais espetaculares jornalistas, autor de célebres frases como “se Pelé não tivesse nascido homem, teria nascido bola”. Um ano de saudade.

Tive o imenso prazer de estar lado a lado com o mestre por duas oportunidades e pude beber um pouco na inesgotável fonte de sabedoria que só os iluminados como ele possuem. Uma delas foi numa palestra na Universidade Mackenzie. O clima era diferente no auditório quando ele começou a falar. O silêncio reverente, os olhos fixos e os ouvidos atentos dos espectadores deram a dimensão do que era estar no mesmo ambiente que Armando Nogueira estava. E foi um bate papo divertido, aberto a perguntas nem sempre pertinentes, mas ele não fugiu de nenhuma e respondeu todas com extrema humildade, aliadas a um bom humor latente e um sarcasmo sutil. Coisa fina!

A outra foi num encontro casual nos corredores da Rede Globo, no Brooklin, perto da hora da gravação do programa Arena SporTV. Ele estava parado perto da máquina de café, cercado por seis ou sete pessoas, divagando sobre futebol, CBF, Seleção Brasileira e coisas de bastidores. Só fiquei perto para ouvir. Eu tinha de ir embora, mas fiquei ali perto. Uns cinco minutos depois ele falou assim: “prestem atenção nisso”, e se voltou os olhos para mim, que estava fora da roda de conversa. Eu fiquei, claro, assustado. Ele me convocou a participar da conversa. “E você também, venha ouvir, entre na roda, meu filho”, ele disse. Contra a vontade dos meus joelhos que tremiam, eu me aproximei do espaço que tinham aberto para eu ouvir. Quando me acomodei, ele falou: “vocês, que são jornalistas jovens, cheios de energia, são vocês que vão ditar as regras do jornalismo do futuro, e esse futuro é agora. Mas jamais percam a coragem de fazer o jornalismo, de dar a notícia. Eu não sou mais importante que a notícia, nem ninguém. E vocês são mais importantes que eu porque estão cheios de gás”.

Aí ele acabou de falar e alguém da produção do programa o chamou para o estúdio. Eu tinha de ir embora, mas pedi para ver o programa de dentro, atrás das câmeras. Por uma conjunção planetária, me deixaram entrar. E fiquei ali, no escuro, admirando aquele ser de fala simples, mansa, mas com um peso tremendo. Nunca esqueci essas poucas palavras. Não lembro de mais muita coisa desse dia, mas foi um dia que recuperei um pouco da fé na minha profissão.

Obrigado, mestre!

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