Até quando?

O piloto Gustavo Sondermann - Foto Duda Bairros

O piloto Gustavo Sondermann - Foto Duda Bairros

SÃO PAULO (dia cinza, clima cinza) – Fiquei meio afastado dos meios de comunicação ontem (domingo), somente à noite que liguei o computador para ver as notícias do dia que tive um choque ao saber sobre o acidente de Gustavo Sondermann, piloto da Copa Montana, categoria de acesso à Stock Car. Ainda estou meio em choque. As notícias pipocam pela internet, podem conferir aqui.

Ano passado tive oportunidade de conhece-lo mais de perto. Eu fazia a assessoria da equipe AMG, pela qual Sondermann disputou seis provas na Stock Car e mais algumas outras na Copa Montana pela equipe J Star Racing, por onde ainda competia quando sofreu o acidente ontem.

Era um sujeito alegre, sempre animado, educado ao extremo, um gentleman. Era tão educado e polido que ficava até estranho naquele ambiente de corridas. Mesmo num dia ruim, ele sempre tinha uma palavra de otimismo, nunca declarava nada de cabeça quente que fosse de cunho negativo. Se ficou em último porque o carro quebrou, dizia que isso era serviria para melhorar suas largadas e aprender a evitar as batidas no bolo, e coisas desse tipo.

Era um ótimo piloto, sempre centrado e muito competitivo. Lucas Finger, piloto da AMG na Copa Montana, em 2010 tinha dificuldades nos treinos para contornar uma das curvas em Jacarepaguá. Sondermann, também da AMG na Stock Car, mas da concorrente J Star na Montana, viu a telemetria de Finger e disse onde ele estava errando. Pegou seu próprio gráfico e mostrou. “Aqui nessa curva eu faço assim, olha a minha linha. A sua tá ruim só aqui, faz desse jeito”. Resultado do grid: Sondermann em oitavo e Finger em quinto, após as dicas.

Mas o que aconteceu ontem é difícil de digerir. Até quando vai acontecer isso? A Curva do Café pode ser segura para a Fórmula 1, como afirmam os próprios pilotos, pela aderência dos pneus e pelo downforce dos carros, que faz com essa curva vire quase uma reta. Mas para outras categorias, com motores de 350 cv e na chuva, não é segura. A curva, em subida, não permite uma visão total e não tem área de escape, o maior absurdo dessa história toda. O sujeito bate no muro e é jogado volta para a pista, e é aí que mora o perigo.

Até a F1 já sofreu com isso. Em 2003, Mark Webber, então na Jaguar, acertou o muro e parou atravessado, mas no canto externo da pista. Só que um pneu ficou no meio do traçado e foi colhido por Fernando Alonso, então, na Renault, que parou nos pneus e saiu mancando do carro. Ficou em observação no hospital, mas voltou sem maiores consequências. Nico Rosberg, em 2006, também passou reto na curva após perder o aerofólio dianteiro e deu no muro, felizmente, sem maiores problemas para ele.

Aí a tragédia. Em 2007, na Stock Light, Rafael Sperafico, que fazia sua estreia na competição, escapou na Curva do Café e bateu nos pneus. O carro voltou para a pista e foi atingido em cheio por Renato Russo. Sperafico morreu na hora com traumatismo craniano. Russo foi hospitalizado mas sobreviveu.

Esse ano, o fotógrafo e piloto de moto João Lisboa, que participava de um track day de motovelocidade, organizado pela escola de pilotagem Motoschool, perdeu o controle na curva, passou reto e bateu com a moto no muro, morrendo pouco tempo após ser socorrido na pista, em 25 de fevereiro.

E nada mudou. Os pilotos mesmos já solicitaram que se fizesse uma área de escape ali naquela curva. Mas, segundo a CBA, entidade semi-morta que mais serve para cobrar dinheiro dos pilotos do que para promover o automobilismo nacional, não mexe porque o autódromo é da Prefeitura de São Paulo e a FIA aprova o circuito para a realização da Fórmula 1. Mas a F1 não é a única categoria que ali compete. Se houve tantos acidentes fatais, porque ainda não mexeram nesse ponto e fizeram a bendita área de escape?

Cacá Bueno, piloto tricampeão da Stock Car, disse que isso já basta, assim, se alguém escapar, tem onde parar sem voltar para a pista. Ele tem cacife para falar isso, conhece Interlagos muito bem e corre de turismo há anos. Para isso precisa-se retirar parte das arquibancadas. Pode tirar, aquela parte só enche na F1. Nem na Fórmula Truck, que é quem mais leva público ali, não se usa aquele trecho da arquibancada.

Carro de Sondermann após acidente

No caso do Sondermann foi um toque normal de corrida, mas acidentes em “T” são os mais temidos e perigosos de qualquer competição no mundo, até nas ruas. Tiago Geronimi tocou o carro de Gustavo Sondermann, que rodou e acertou o guard-rail e voltou à pista. Foi acertado em cheio por Pedro Boesel.

Outra coisa: esse pneu na roda traseira direita foi montado errado (ou pela Goodyear ou pela equipe). As ranhuras de chuva deveriam estar apontando para frente, não para trás. Não se sabe até onde isso pode ter desestabilizado o carro do piloto.

O que importa é que mais uma vida se vai por irresponsabilidade e incompetência dos envolvidos. Não há um único culpado, mas uma série de fatores que levam à essas fatalidades. Esse pneu pode ser uma delas. Mas até quando vamos precisar de uma morte para melhorar a segurança do esporte?

Depois de Airton Senna e Roland Ratzenberger, a F1 ficou bitolada em segurança. Ótimo. Não morreu mais ninguém depois disso, mas precisou morrer para mudarem.

Aqui, foram duas mortes no mesmo ponto da pista considerada a mais segura do Brasil. Será que agora vão mexer na Curva do Café para evitar mais mortes? Espero em Deus que sim. Que os pilotos sobreviventes que passam ali a 250 km/h e sabem do frio na barriga que sentem, se reúnam com a CBA e a Prefeitura de São Paulo e exijam uma mudança. Não dá mais para aceitar essas coisas em 2011.

Não consegui dormir direito. Gustavo acabou de fazer 29 anos, no fim de fevereiro. Eu faço 29 em agosto. É triste. Estamos revoltados e enlutados aqui. E que Deus conforte a família de Sondermann nessa hora terrível! Ao Sérgio, à Nanci e aos familiares, meus sentimentos.

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3 Comentários

Arquivado em automobilismo, generalidades

3 Respostas para “Até quando?

  1. FATIMINHA

    “Senhor”! Por acaso não chegou por aí, um
    garoto dirigindo um carro em alta velocidade?
    É o nosso Gustavo Sondermann “Senhor”
    brasileiro como eu e o “Senhor”
    Arrojado, o melhor de todos!
    Se ele chegou, dê a ele a bandeira quadriculada,
    ele venceu. Dê a ele sua mão “Senhor”,
    para que ele saia do carro,
    ele pode estar assustado e meio perdido,
    pois saiu daqui, com a velocidade de um raio,
    se quer deu tempo para se despedir
    Sossegue-o “Senhor”, faça com que ele veja,
    a maior prova de Gratidão e de Amor
    que jamais um mortal recebeu.
    Transmita a ele “Senhor” a mais sincera gratidão
    por todos esses anos de gloria e de luta.
    Há! Acelera Gustavo Sondermann
    pois daqui de baixo a cada estrela que cruzar o céu,
    saberemos que você estará nela e os anjos do céu
    tocarão em seus clarins a Música da Vitória!
    Acelera Gustavo Sondermann
    Até um dia, Campeão!

    Ana Paula Almeida

  2. Edualemao

    Saulão,

    Muito triste a noticia e principalmente para quem convivia com o Gustavo ou algum dia o conheceu!

    Nao vou entrar no mérito da questão pois vc já disse tudo, só queria lhe parabenizar pelo brilhante texto e pelo seu talento. Em breve, boas coisas virão, vc vai ver!

    Grande abraço!

    Edu Alemao

  3. Nancy e Sergio

    Saulo e Ana Paula,

    Ficamos hiper emocionados com os textos. Muito obrigada.
    Nancy e Sergio Sondermann

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