Turista acidental

BARREIRAS/ BA (hora de voltar) – Está chegando ao fim minha passagem pelo interior da Bahia. A cidade de Barreiras, no extremo oeste baiano, foi uma grata surpresa que pude conhecer por esses três dias (e meio, já que retorno na sexta). Como nunca tinha estado na região nordeste do país antes, essas novidades todas me deixam com outra visão sobre o Brasil. De verdade.

Vista aérea parcial de Barreiras (BA)

O jornalismo me deu algumas oportunidades de conhecer lugares que eu não imaginava estar tão cedo, ou nem imaginava existir. E conhecer essas localidades, pessoas, costumes, culturas, dialetos, culinárias e demais regionalidades é uma das coisas que mais me alegra nessa vida.

Quase que centralizada na região, Barreiras fica a mais ou menos a duas horas de carro de Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí, mas a distantes 871 km da capital Salvador. Esse pedaço da república tem algumas características diferentes, dizem que aqui não se parece muito com o resto da Bahia (algo semelhante à Miami ou Las Vegas, que falam que não é bem de fato os EUA real), então, só se estando no local para ver que é mesmo um pouco diferente do esperado.

Recentemente os meios de comunicação nacionais deram destaque à possível criação de mais dois estados no Brasil dentro do atual Pará: Tapajós e Carajás. Esse movimento “separatista” também é muito forte por aqui. Nesta região apóia-se a criação do estado do São Francisco.

Muitos com quem conversei estão descontentes com a as administrações municipais e estadual. Só hoje (quinta-feira) rodei mais de 400 km para fazer meu trabalho e em várias cidades as pessoas entravam nesse assunto. A região é riquíssima em minerais e tem um imenso potencial agrícola, mas a imprensa reclama da falta de atenção com a região, por isso querem um estado novo. Não sei se é herança de Canudos, mas é forte o movimento para isso. Adesivos, faixas, banners, movimento político, manchetes de jornais, sempre tem alguma linha sobre o assunto pipocando aqui e acolá. Dizem que já se tem até um hino estadual, datado de antes de 1950, e ideias sobre essa separação em documentos do séc. XIX.

Ressalto que só estou reproduzindo o que tenho ouvido por aqui, mas não pude saber o outro lado (do governador Jaques Wagner, do PT) e acho que nem vou conseguir fazer isso. Só estou de passagem por Salvador (onde conheci só o aeroporto).

Eu sou a favor de recortar o Brasil em mais uns 18 estados. Pelo menos uns seis no Amazonas. Embora se tenha uns contras que são uma maior oportunidade para desvios de dinheiro, corrupção, mais deputados, senadores, mais gastos com a máquina pública, estados menores dão menos trabalho para ser administrados e têm bom potencial de crescimento. Um exemplo disso é o Tocantins, estado mais novo da federação, que cresceu a passos largos (basta ver os números disso apontados pelo IBGE).

As cidades da região pedem por um desenvolvimento. São mais de 150 mil barreirenses e uma demanda por modernização que não chega facilmente pela distância da sede do governo estadual. As estradas são precárias e sem acostamento a maior parte do tempo, e têm mato crescido nas beiradas, encobrindo as já raríssimas placas, que caem ou são arrancadas e não são repostas. O asfalto é coalhado de buracos e deformidades que judiam de qualquer suspensão e amortecedor, além de estar mal sinalizado. As ruas das cidades aqui, quando não são de terra, também têm um asfalto péssimo, acho que o primeiro que foi feito e nunca mais foi remendado ou recapeado. Falta certa ordem em uns setores, mas é visível ver que o povo quer crescer, só precisa de uma ajuda a mais.

Fui extremamente bem recebido em todas as redações que visitei. Os colegas se simpatizam com quem dá atenção às causas locais, ainda mais quando digo que represento uma empresa que está investindo pesado aqui pela descoberta de um metal estratégico raríssimo no mundo, só encontrado no Cazaquistão e na China, e agora aqui em Barreiras: o tálio. As mídias locais relatam o descaso político o tempo todo, reclamam que os administradores, alçados aos cargos para transformar, melhorar, mudar e crescer, não fizeram seu papel. Isso em mais de uma cidade. Querem renovação. Querem oportunidade de crescer. Com essa descoberta do minério, sentem que a hora é essa. E aqui também apóiam a criação dos dois estados no Pará, além de contar com a simpatia do governo do Tocantins para a criação do estado do São Francisco.

A região é belíssima. Há encostas de morros com chapadas de tirar o fôlego pela beleza, rios limpos e cheios de vida, com cascatas, corredeiras e muito potencial turístico. Até o aeroporto local, construído num planalto elevado, foi bancado por ingleses na época da II Guerra (e permanece com a estrutura original até hoje), mas não há uma placa ou algo que indique isso, só histórias dos locais. Mas a vista de lá de cima é maravilhosa. É só ter vontade de fazer direito que a coisa sai do papel.

Já parto com vontade de voltar em breve, mas quero voltar para conhecer mais do que as avenidas principais e a pousada onde me hospedo, que é ótima. Comi melhor aqui do que em alguns restaurantes de São Paulo, com mais qualidade e preço menor. Não me fartei da culinária tradicional (acarajés, moquecas, vatapás e afins), mas quero experimentar alguma coisa quando puder. Fui muito bem tratado por todos, desde os colegas jornalistas, pelo pessoal da empresa e até balconistas de estabelecimentos comerciais que me preparam um simples café expresso.

Gosto disso, de tomar um café em lugares diferentes, de conversar com gente e absorver essa aura local. Essas pessoas gostam de falar de sua história, de suas aventuras, de saber como é a vida fora do seu círculo, e com isso eu me identifico demais. As cidades têm uma simpatia e um ritmo próprios, com suas igrejinhas centrais, pessoas sentadas em cadeiras na calçada, chapéus e chinelos de dedo, coisa bem de interior. Vou guardar com carinho essa viagem onde pude ser um turista acidental nessa região do Brasil, que em breve pode ganhar novas linhas e um SF como sigla. Torço para isso.

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Arquivado em generalidades, Política

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