Català

SÃO PAULO (A reveure*) – Língua esquisita o catalão. Queria saber como se fala “pintou o campeão” nesse idioma falado na costa nordeste da Espanha, em Andorra, na costa sudeste da França e em outros poucos territórios naquelas glebas. Porque é isso que os catalães que estiveram em Montmeló, próximo a Barcelona, estão falando sobre o tedesco que vem triturando os números nesse primeiro quarto da temporada 2011 da Fórmula 1.

Essa deve ser a cena mais comum da temporada...

Deu Vettel an cabeça mais uma vez. Mas nessa não era nada óbvio. A começar pelo temporal que Webber fez em todo o final de semana, pulverizando os palpites de que só daria o alemãozinho de novo. Nada. O aussie deu o ar da graça marcando a pole e sendo o primeiro em todos os treinos. Mas, como está entrando em declínio, na prova voltou a ser o velho Mark de sempre. Um leão de treino.

Mas a pista de Barcelona e Adrian Newey, o projetista da Red Bull, formam um par como poucos no mundo. O GP da Espanha foi disputado lá pela primeira vez em 1991. Foram 21 edições até agora e em dez delas o vencedor foi alguém a bordo de um carro by Newey. A pista exige muita aerodinâmica e Adrian conhece como poucos o ato de dar vida às linhas fluidas de um F1. Esse ano, para azar dos demais, é Vettel, um moleque alucinado e taletosíssimo, que se diverte ao volante de um carro de Adrian. E que com a vitória de domingo, a de número 14 na carreira (empatou com Emerson Fittipaldi, Graham Hill e Jack Brabham nas estatísticas, e está na 16ª posição na lista dos que já venceram na F1), já abre 41 pontos de vantagem sobre o segundo colocado na tabela de classificação. Um assombro!

E outro dado interessante: há dez anos que quem saía na pole vencia a prova espanhola. E Sebastian quebrou o tabu. Webber largou mal, Alonso pulou de quarto para primeiro e aí começou a diversão. Vettel na dele, esperando a Ferrari que não tem um equipamento à altura de competir de igual para igual sucumbir à própria (má) sorte. Fernando fez o que pôde enquanto teve pneus, deu um show na pista, mas quando calçou os pneus de mármore da Pirelli, que fez o pneu duro mais duro dos últimos tempos, foi ficando, ficando, até terminar em quinto, uma volta atrás do líder. Triste.

Mais triste para Massa, que vê seus dias em Maranello se findando. Rodou sozinho no fim da corrida, não ameaçou quase ninguém e pouco fez até abandonar na brita com problema de câmbio. Foi até ultrapassado por Pérez e Heidfeld sem oferecer resistência. A continuar esse ritmo, de andar sempre atrás de Alonso (o que aconteceu até agora), Felipe pode começar a digitar seu currículo. Fernando tem a simpatia da equipe que vê nele sua esperança de retornar à era Schumacher, e o espanhol sabe que para ter uma solidez necessária que corresponda às expectativas depositadas nele, é preciso tempo. Depois de perder duas temporadas na Renault após um ano para ser esquecido na McLaren, Alonso aposta nesse casamento. E Felipe caminha para ser um novo Barrichello na Ferrari.

Eu disse isso há algum tempo aqui, que o Brasil está virando um país que fabrica bons segundos pilotos. Está acabando a era vitoriosa brazuca na categoria. Na F1, o que importa é comemorar o primeiro lugar, o resto é resto, ser segundo é o primeiro dos últimos. Não dá para esperar muito de quem comemora o “campeonato moral”, o terceiro lugar com euforia ou que acha bom chegar nos pontos. Por isso que a coisa está como está.

Mas voltando, Webber não tem justificativa de pilotar o mesmo carro de Vettel e, após sair na pole, chegar em quarto. O australiano se perdeu de vez. Vai ver seu colega ser campeão de camarote e sem conseguir provar o contrário.

Na McLaren, a única equipe que pode assustar os touros vermelhos, a ordem é celebrar a conquista. Pena que mesmo com KERS, DRS (asa móvel), pneus, estratégia, vontade e apetite, Hamilton não conseguiu passar Vettel, que não tinha asa para se defender e tinha um KERS meia-boca (que a Red Bull não resolveu até agora). Foram 12 voltas de supremacia do desenho de Newey sobre o conjunto dos prateados. Briga excelente, mas inútil. Bom que o time de Woking conseguiu um 2º e um 3º com Hamilton e Button.

E Jenson é mesmo um lorde pilotando. Largou mal, é verdade, caiu para 10º e mudou a estratégia para só três paradas, mas como é um dos poucos que sabe como poupar a borracha, fez isso na prova e levou seu carro com sutileza até o fim, ganhando um trofeuzinho como prêmio pela competência. Prova que seu título mundial não foi mero acaso ou sorte.

Outro alemão que fez uma boa prova foi Schumacher, que ainda vive um calvário em seu retorno. Largou muito bem, deu suas fechadas de porta tradicionais e lutou pelo 6º lugar. Fez uma boa estratégia ao largar de pneus macios, enquanto os outros largavam com os duros. Aos poucos, vai mostrando que ainda é osso bem duro de roer.

Rosberg, seu companheiro, terminou atrás dele. Ainda brigou um pouco pela posição, mas o alemão mais velho não deixou barato e manteve-se à frente. Nada mau, mas também não é bom. Pelo menos a Mercedes vai fazendo seu campeonato com algum brilho nesse começo, colocando um carro aqui e outro ali nos pontos.

Ponto negativo para a Williams de Rubens Barrichello e Pastor Maldonado. Sir Frank deve estar furibundo e com um desânimo do tamanho de sua história. É o pior começo de temporada de todos os tempos do garagista, sem ponto nenhum. Rubens sofreu com um câmbio dessincronizado (é assim que escreve?) nos treinos e, depois de ter largado em 20º com câmbio novo, se arrastou lá atrás, brigando com Virgin, Lotus e Hispania. Só o dinheiro da PDVSA, a petrolífera da terra de Hugo Chávez, não é garantia de um bom carro.

Maldonado, que largou em 15º, acabou em 20º. Esse carro da Williams pelo jeito não tem salvação. E Rubens é outro que vê um horizonte negro nos seus planos de permanecer na categoria. Se Frank não fechar com a Renault para ter um novo motor (difícil, já que os franceses forneceriam motores para quatro times em 2012 com a Williams), que seria um respiro a mais, Barrichello pode dar um adeus melancólico. Desse jeito ele não fica. No fim da carreira se humilhar assim não dá. E é difícil pintar um convite para outra equipe médio-grande. Tem algo de muito errado com o time de Grove.

Na Renault, enquanto Kubica se recupera para saber se ainda consegue correr, Heidfeld vai esquentando o banco com notoriedade, uma ótima escolha da Genii e seu time preto-e-dourado. “Quick Nick” largou em último e veio escalando todo mundo, finalizando em 8º. Excelente! Quem foi mal aí foi Petrov, de 6º na largada para 11º na bandeirada. Sem explicação. É um bom piloto, mas irregular demais.

Surpresa foi ver, por uma volta só, a Lotus verde-e-amarela andando entre os dez primeiros com Trulli e Kovalainen (8º e 9º, respectivamente). O finlandês ainda deu uma escapada de verdade e acabou na barreira de pneus. Deu um fio de alegria para o time, que é simpático, ao contrário dos dois pilotos sem sal nenhum que guiam seus carros.

Menção honrosa novamente para Sérgio Pérez e para Kobayashi. O muchacho e o mito, ambos de Sauber, fecharam a zona de pontos. Koba-san não deu seu show costumeiro de ultrapassagens nem assombrou Schumacher. Deve estar guardando alguma coisa para a próxima corrida.

Por falar nisso, no domingo que vem acontece uma das provas mais charmosas do mundo: o Grande Prêmio de Mônaco. Podem falar o que quiserem, que a pista é ruim, que as ruas do principado não servem para a prática de uma corrida, que é perigoso e lento, etc. Mas o charme da Côte d’Azur, dos ancoradouros de iates gigantescos, mais o luxo e o glamour da prova compensam as limitações impostas. A atividade em Monte Carlo começa na quarta e pára (vou continuar com esse acento por muito tempo) na quinta, já que a sexta é reservada aos eventos sociais. Lá pode. Até ser um poser pode.

Essa é uma das provas imperdíveis do calendário para mim, ao lado da primeira (seja onde for), Monza, Silverstone, Canadá, Spa-Francorchamps, Suzuka e Interlagos e da última (coincidentemente aqui no Brasil esse ano). E talvez Cingapura, pelo apelo noturno. Gosto dos circuitos mais tradicionais e dos grandes templos do automobilismo. Pena que o Estoril, Magny-Cours, Indianápolis, Paul Ricard, Le Mans, Brands Hatch, Kyalami, Jerez de La Frontera, Hungaroring (com sua pista enorme), Zeltweg e outros circuitos não recebam mais a F1.

Vamos ver se Vettel leva mais essa para casa. O tedesco só perde esse campeonato se o mundo acabar antes. Fins després – Até logo

Resultado final do GP da Espanha:

1º. Sebastian Vettel (ALE/Red Bull-Renault), 66 voltas
2º. Lewis Hamilton (ING/McLaren-Mercedes), a 0s6
3º. Jenson Button (ING/McLaren-Mercedes), a 35s0
4º. Mark Webber (AUS/Red Bull-Renault), a 12s2
5º. Fernando Alonso (ESP/Ferrari), a 1 volta
6º. Michael Schumacher (ALE/Mercedes), a 1 volta
7º. Nico Rosberg (ALE/Mercedes), a 1 volta
8º. Nick Heidfeld (ALE/Lotus Renault), a 1 volta
9º. Sergio Pérez (MEX/Sauber-Ferrari), a 1 volta
10º. Kamui Kobayashi (JAP/Sauber-Ferrari), a 1 volta
11º. Vitaly Petrov (RUS/Lotus Renault), a 1 volta
12º. Paul di Resta (ESC/Force India-Mercedes), a 1 volta
13º. Adrian Sutil (ALE/Force India-Mercedes), a 1 volta
14º. Sebastien Buemi (SUI/Toro Rosso-Ferrari), a 1 volta
15º. Pastor Maldonado (VEN/Williams-Cosworth), a 1 volta
16º. Jaime Alguersuari (ESP/Toro Rosso-Ferrari), a 2 voltas
17º. Rubens Barrichello (BRA/Williams-Cosworth), a 2 voltas
18º. Jarno Trulli (ITA/Team Lotus-Renault), a 2 voltas
19º. Timo Glock (ALE/Marussia Virgin-Cosworth), a 3 voltas
20º. Jérôme D’Ambrosio (BEL/Marussia Virgin-Cosworth), a 4 voltas
21º. Narain Karthikeyan (IND/Hispania-Cosworth), a 5 voltas
22º. Felipe Massa (BRA/Ferrari), a 8 voltas

* A reveure = até a próxima, em catalão.

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